O céu do golpe de 1964
- carolinedaluzmorae
- 1 de abr.
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O golpe que mergulhou o Brasil em 21 anos de ditadura foi iniciado ainda na madrugada do dia 31 de março de 1964, quando o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4.ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora (MG), decidiu descer com sua tropa em direção ao Rio de Janeiro com o objetivo de depor o presidente João Goulart. Naquela manhã, o general Guedes informou por telefone a Castello Branco, que viria a ser o primeiro presidente do regime militar: “Desde as seis horas da manhã as nossas tropas se deslocam em várias direções. Deflagramos a revolução”1. Esse será o horário de referência que vamos utilizar.

O signo de Áries ascendia no horizonte. Áries, pertencente à triplicidade do fogo, é colérico; também de modo cardinal, traz em si a iniciativa e disposição para agir. É regido por Marte, que, por sua vez, está em Áries, na Casa 1. O planeta que é considerado o maléfico menor, significador das guerras e da violência, está domiciliado e angular, isto é, encontra-se com força para agir. Nesse sentido, levanta-se com pressa e determinação. O planeta vermelho também é significador das forças armadas, que naquela madrugada, deram o pontapé inicial para o golpe.
O Sol também está em Áries, signo onde encontra exaltação. O Sol que nasce naquela manhã representa o governo que finda, uma vez que João Goulart entregou o cargo sem nenhuma resistência, mas, principalmente, o que está por vir; ambos respondem aos desmandos de Marte.
Júpiter e Mercúrio também estão em Áries. Respectivamente, os significadores da Justiça e da imprensa, áreas que também passam a ser obrigadas a se submeter às ordens de Marte. Todos os planetas em Áries estão na Casa 1, local do mapa que trata das condições gerais do país. Isso quer dizer que o país amanhece tomado pela força, pelo conflito, sob as ordens do planeta vermelho.
A Lua está em Escorpião, signo que também é regido por Marte e responde ao pequeno maléfico. Em Escorpião, a Lua encontra a sua queda; está em um signo onde está debilitada. A Luminar noturna é significadora do povo que, nesta carta, demonstra as dificuldades que os brasileiros passariam durante a ditadura. Nesse momento, a Lua estava na Casa 8, um local considerado maléfico, que trata de angústias e morte. O conceito de povo é muito amplo, sabemos que parte da sociedade apoiou o golpe de 1964. Entretanto, de maneira geral, verificamos nesse mapa que a população viria a sofrer perdas a partir do movimento iniciado nesta madrugada.
Vênus está em Touro, em um signo onde encontra conforto, que é o seu domicílio. Conhecida como benéfica menor, é significadora dos artistas, indicando a profusão de talentos que se destacaram em diversas áreas, como na música, no cinema, no teatro e nas artes visuais durante os anos de ditadura. Entretanto, Vênus está em conjunção com a estrela Caput Algol, a Cabeça da Medusa, uma estrela que promete violência extrema e situações de injustiça, e sabemos que tantos artistas foram perseguidos e silenciados pelo regime militar.
Saturno em Peixes está na Casa 12, lugar que trata dos inimigos ocultos e das conspirações. O significador do tempo, do poder institucional e representante das forças arcaicas que comandam o Brasil, trama a derrubada do presidente, pois quer manter o poder nas mãos das famílias que sempre governaram o país e não aceitariam qualquer reforma, mesmo que pequena, para melhorar a vida da população mais pobre. Por isso, para esses poderosos, as Reformas de Base propostas por João Goulart representavam uma grande ameaça.
Para acrescentar dados à nossa análise, vamos verificar o mapa da conjunção entre Júpiter e Saturno, que ocorreu em 18 de fevereiro de 1961. Os encontros entre esses planetas, os mais lentos do céu visível a olho nu, acontecem a cada 20 anos e trazem promessas coletivas para esse período. Vamos analisar (rapidamente) o mapa da conjunção Júpiter-Saturno de 1961 e entender como o golpe de 64 aparece como uma promessa.

Nesse mapa, Libra nasce no horizonte. Signo da triplicidade do ar, sanguíneo, traz questões sociais e relacionais, representa a diplomacia e a concórdia. Vênus é, portanto, o planeta que rege esse mapa e representa o Brasil e o estado geral do povo durante o período de vinte anos. Conhecida como pequena benéfica na astrologia, por ser favorável à vida, aqui está em Áries, portanto, exilada. Em debilidade, perde força para agir e seus assuntos entram em declínio. Está na Casa 7, setor que trata dos domínios de outros países, sejam os aliados ou inimigos declarados. Nesse local, o país tem sua soberania enfraquecida; sua capacidade de ação é limitada por interesses de outros. Está mais que comprovada a interferência dos EUA no planejamento e financiamento do golpe militar, no contexto da Guerra Fria. Vênus também é significadora dos artistas e, na Casa 7, também trata daqueles que foram exilados nesse período.
A conjunção entre Júpiter e Saturno acontece em Capricórnio, signo que oferece domicílio a Saturno. O maléfico maior está fortalecido, sendo o planeta com maior dignidade nessa carta, tem força para agir. Quando Saturno está digno, os tempos são de secura, de limitação, dificuldades e muitos obstáculos. Quando Júpiter, significador da Justiça e benéfico maior, está em Capricórnio, sua queda, está enfraquecido e não consegue resolver os assuntos ao qual se propõe. Júpiter em queda traz à tona situações de injustiça e exclusão. Como dizia o astrólogo persa Mãshã’allãh: “Quando Saturno é mais forte que Júpiter, isso significa tribulação”2. Saturno e Júpiter estão na Casa 4, que, entre outros assuntos, trata das terras de cultivo e pastagens. Repete o local que está no mapa do Grito do Ipiranga, apontando uma continuidade. O planeta, significador das estruturas e do domínio, representa, portanto, o poder da elite, dos donos dessa terra chamada Brasil, a quem o golpe serviu.

Marte, significador das forças armadas, ocupa a Casa 10, local do governo ou governante. Domina esse território, embora esteja no Caranguejo, sua queda, em condição indigna. Isso faz com que possa agir de forma equivocada, violenta, com tendência a ser ganancioso e ávido. No mapa de 31 de março de 1964, Marte e os outros planetas em Áries ocupam a Casa 7 do mapa da conjunção Júpiter-Saturno. Chegam até a casa onde se encontrava o regente do Ascendente desse mapa e apontam a destinação desse período. Os planetas nessa casa tornam o país refém de si mesmo, atendendo aos interesses estrangeiros e violentando o próprio país.
Saturno, no dia do golpe, que é significador do limite e da morte, aquele que encerra o que quer que seja e tem passo lento, está a 0° de Peixes, local exato onde está o Sol, significador do governante, no mapa da Conjunção Júpiter-Saturno. Esse posicionamento marca um rito de passagem, o encerramento abrupto de um governo que sepultou a modesta democracia brasileira de então.
Estudar astrologia mundana é observar que a história é cíclica, o que ajuda a nos preparar para tempos difíceis. O céu nos mostra quando precisamos superar os obstáculos, mas também aponta quais são os períodos de prosperidade. Desejo que nenhum de nós se curve diante dos desafios do seu tempo histórico e que a astrologia nos oriente nos períodos em que o autoritarismo vigora. Ditadura nunca mais!
GASPARI, ELIO. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.67.
Citação do astrólogo persa Mãshã’allãh. DYKES, BENJAMIN. Astrology of the World: Revolutions and History. 1. ed. The Cazimi Press, 2014. v. 2, p. 153.






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